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Exposição individual
15.02 – 08.03. 2025
Yiri Arts, Taipei, Taiwan
Em Portugal, onde a artista nasceu, uma refeição não é verdadeiramente apenas, ou de todo, sobre comida. Trata-se de partilhar, não apenas o acto necessário de comer, mas algo nosso com os outros. Seguindo esta ideia, a exposição está organizada como tal - um menu para um banquete - feito pela artista e para a artista, no qual somos apenas espectadores convidados a levar algo, talvez uma refeição metafórica, connosco quando sairmos.
Couvert - Detox
A nossa refeição começa com um olhar cru e honesto sobre a auto-estima e a nossa relação frequentemente perturbada com a imagem corporal. Na obra "Detox" é-nos oferecido um vislumbre das lutas pessoais da artista; onde o que é aparentemente superficial, com cores pastel, é de facto mais profundo e mais cicatrizante do que parece. Este primeiro trabalho prepara o terreno para as explorações mais profundas que se seguirão, levando-nos a considerar os ingredientes iniciais que moldam as nossas narrativas pessoais - a forma como nos vemos e nos conhecemos.
Entrada - Fuso horário sem rotina e notário
O paradoxo de ter um horário meticulosamente organizado, mas sentir-se perdida e confusa, reside na tensão entre a estrutura externa e o alinhamento interno. Tal como um prato de entrada exagerado nos pode deixar confusos no início de uma viagem gastronómica, esta obra transmite a noção de fazer/pensar demasiado - a sua própria armadilha.
1º prato - Inquietação dela...ilusão bela
Por esta altura, a honestidade no trabalho de Malta continua enquanto olhamos para outra luta que muitos de nós enfrentamos. O primeiro prato fala do equilíbrio entre a realização pessoal e as exigências profissionais. Explora os sacrifícios que fazemos na procura das nossas ambições, mesmo quando estas representam algo com que um dia sonhámos. O sabor agridoce do tempo perdido paira no ar, lembrando-nos dos compromissos inerentes à vida.
2º prato - Manifestando-me com mais intensidade nas extremidades
O segundo prato apresenta talvez um perfil de sabor mais complexo - a irresistível atracção, mesmo quando a lógica dita o contrário. Como um íman, a tensão entre o desejo e a razão cria uma sensação palpável de mal-estar, um prato que deve ser consumido com cuidado.
Sobremesa - Sempre a quebrar gelo
À medida que avançamos para as notas mais doces da refeição, chegamos a uma celebração do lar, no sentido físico e metafórico. Evoca o calor, o conforto e o sentimento de pertença a algo maior e mais importante do que nós próprios. Malta destaca que os momentos doces também têm o seu próprio nível de preocupação quando se trata de doses elevadas de açúcar. Por vezes, o desejo vem com o vício e o prazer com a abstinência. É um ponto onde a perspectiva em relação ao que vivemos anteriormente se torna mais lúcida.
Café - E o culpado acena
Uma chávena de café forte é muitas vezes o digestivo perfeito, especialmente numa casa portuguesa, e esta obra tem um objectivo semelhante. No país da artista, é comum ir “tomar um café” a qualquer hora do dia e isso implica uma conversa mais pessoal e aprofundada. É, portanto, a nota final desta experiência e com ela vem a aceitação aliada à constatação de que os fins são também começos. Tal como uma boa chávena de café, esta obra recorda-nos que os aspectos menos saborosos da vida podem ter o seu próprio valor e contribuir para a riqueza global da nossa "refeição".
Vinho - Estou aqui pelo enredo
Finalmente, chegamos ao vinho - uma peça escultórica que nos acompanhou silenciosamente durante toda a "festa visual". O vinho observa todo o percurso do jantar. Assiste às apresentações, aos brindes, às histórias partilhadas e aos momentos de reflexão no final do festim. Com a forma de uma garrafa, esta obra não é apenas um complemento à refeição, mas uma presença multidimensional - uma testemunha que transforma o jantar numa celebração de conecção, sabor e memória.
Maria de Brito Matias, 2025